Quando estava no final do colégio e me encontrei no famoso dilema de escolher qual faculdade eu vou fazer, descartei de cara uma gama de opções com o seguinte pensamento "Não manjo física e matemática, nada de "Exatas" não quero morrer de estresse e ódio pela raça humana, nada de "Humanas". Simples assim.
Quem me conhecia na época apostava que eu ia fazer alguma coisa entre ciências sociais, letras ou história, mas não rolou. Minha experiência com as ciências humanas no colégio teve grande influência nesta decisão, eu poderia resumir três anos de estudos "Humanos" em uma palavra: decepção.
Sim, porque apesar de não gostar de Exatas quando eu me esforçava e tentava manter as linhas de raciocínio 2 ao quadrado era sempre 4 e sob as CNTP os gases têm comportamento previsível. A matemática não te decepciona, ela não vai te deixar frustrada, você pode frustrar-se consigo mesma por tirar dois na prova de vetores, mas a física tá lá, intocada (pelo menos nos níveis de conhecimento que tive a honra de ser apresentada). Já as Ciências Humanas... Ah!
Decepção é uma expressão forte, mas ao mesmo tempo parece não exprimir tudo. Porém, o que esperar de estudos que têm como ponto central o ser humano e suas atitudes? Somos um monte de merda fazendo sujeira e fedor por aí.
Escolhi farmácia, fiquei no muro entre a biologia e a química, a mais experimental das "ciências exatas", muita gente achou que não ia durar, mas cá estou eu comemorando um ano e meio de formada. Uhu!
Ah! An...
Fui pro lado da ciência experimental, protegida dentro de um laboratório e outro da espécie humana, de seus estudos e de suas decepções. Fiz uma escolha, preferi estudar como salvar o corpo fisiologicamente falando de um ser humano do que entender suas misérias, cada uma sabe de seus próprios limites. Escolhi não me envolver. Estou em paz, certo?
Hum, o que tenho a lhe dizer é que a vida é uma caixinha de surpresas completamente irônica.
Não fiz letras, porém continuo lendo e indo cada vez mais fundo no mundo da literatura. Não sou uma leitora que preza quantidade, mas a qualidade tem me guiado bravamente.
Não fiz história nem geografia, mas tenho viajado e aprendido os podres e as glórias de diferentes povos, suas desgraças e assunções são lindas de se ver e ouvir, principalmente banhado a cerveja.
Não fui cursar nenhuma ciência social, psicologia ou licenciatura, mas aprendi e aprendo todo dia com os outros espécimes iguais a mim o quanto somos limitados e devemos aprender com esses limites.
Tentei fugir de ser humana, mas a humanidade que buscava evitar esteve sempre dentro de mim. Como posso fechar os olhos e dizer "feminismo é mimimi" ao abrir a caixa de entrada e ver uma mensagem da minha prima dizendo que está na delegacia porque um "malandrão" não aceitou o não que ela e a amiga deram e avançou o sinal, assedio sem abuso físico é crime sim! Ou quando toda vez que vamos ao bar e meu namorado pede as bebidas eu tenho que trocar os copos porque a cerveja é pra mim e o Martini é pra ele.
Como posso ser neutra ao ver meu próprio irmão sofrendo discriminação no trabalho e na faculdade porque "homem trans não é homem, é mulher com transtorno mental". VSF!
Como posso ser omissa se ao sair com um colega do trabalho pra beber uma cerveja e ouvir uma música a gente não pode pegar o metrô sem que algum grupinho faça piadinha e risadinhas soltando de vez em quando um "viado!".
Dá pra ser passiva de opinião quando seu pai luta por uma licença saúde remunerada por conta da igreja na qual trabalhou mais de vinte anos, tem que além de provar que está doente, abrir sua vida pessoal e circunstâncias simplesmente porque não é um câncer, que acomete qualquer um... Não, é HIV, e só pessoas devassas têm HIV, pessoas idôneas, como um pastor deveria ser, não pegam essas coisas.
Tentei não me envolver porque sabia que não conseguiria fazer pela metade e sair ilesa... Mas como é que eu vou fugir das ciências humanas quando eu sou a própria humanidade?
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segunda-feira, 23 de novembro de 2015
sábado, 21 de novembro de 2015
Dia Útil II
O que é útil? O que transforma algo de natureza abstrata em funcional dentro do cotidiano?
Algo que traga auxílio para o decorrer dos dias, das semanas, ou mais importante ainda, das horas, porque só quem vive sua própria vida sabe o poder esmagador que o rolar dos ponteiros pode ter sobre as ideias.
Tenho descoberto a funcionalidade do amor.
Não vejo uma forma mais racional de calcular o valor de algo abstrato a não ser pela ação que isso constrói. O que está dentro de nós borbulhando em banho-maria todos os dias, as convicções, ideais, motivações, vontades, sonhos, desejos, isso tudo torna-se explícito em nossas ações. Não estamos o tempo todo pensando sobre, mas nos serve como limites e fagulhas para o que fazemos. Sendo isto posto, gostaria de comentar como o amor entrou num patamar elevado dentro de minha concepção de respeito.
Algo que traga auxílio para o decorrer dos dias, das semanas, ou mais importante ainda, das horas, porque só quem vive sua própria vida sabe o poder esmagador que o rolar dos ponteiros pode ter sobre as ideias.
Tenho descoberto a funcionalidade do amor.
Não vejo uma forma mais racional de calcular o valor de algo abstrato a não ser pela ação que isso constrói. O que está dentro de nós borbulhando em banho-maria todos os dias, as convicções, ideais, motivações, vontades, sonhos, desejos, isso tudo torna-se explícito em nossas ações. Não estamos o tempo todo pensando sobre, mas nos serve como limites e fagulhas para o que fazemos. Sendo isto posto, gostaria de comentar como o amor entrou num patamar elevado dentro de minha concepção de respeito.
Vejo pessoas se apaixonarem e desapaixonarem tão facilmente e passarem por processos tão dolorosos e autodestrutivos que a muito me pergunto, por quê? O amor não é a única nem mais importante coisa que alguém pode ter na vida, disso eu estou convencida. Aí você cresce e descobre o grande mundo do namoro, depois você conhece um maior ainda, o do sexo, e experiências nascem dentro de todos os universos em caos e colisão. Depois de um período, que dependendo da pessoa pode ser de meses ou anos, alguém vai te dizer que você precisa encontrar o amor. Mas, o que é o amor? Bom, na nossa sociedade ocidental americanizada (brasileira) não se define muito bem isso abstratamente, talvez algumas novelas ensine uns truques, mas amor pode ser um tabu tanto quanto sexo para muita gente. Por outro lado, podemos dizer que se concretiza com um casamento, uma casa cheia de bugigangas, um carro, ou com o IPI reduzido e taxa zero, dois caros, dois filhos (porque um só é judiação com a criança e três já é muito gasto) e um cachorro, talvez, é que hoje em dia ter um animal significa que você é confiável, se for vegano então, posso te dar o número da senha do cartão de crédito, o que você vai fazer? Tão bonzinho! Um casamento feliz é para muita gente sinônimo de amor. Mas eu não sou muita gente.
Sou contra o casamento? Bom, esta é outra conversa. Estamos aqui mais propriamente para tratarmos de como o amor subiu no meu conceito e é claro que isso tem tudo a ver com estar alerta e reabrindo discussões constantemente, como gostaria de ver Raul Seixas.
Nos últimos meses eu me (re)questionei muita coisa, isso porque me coloquei numa situação que nunca imaginei poder ser possível: um relacionamento a distância. Foram dias muito produtivos de solidão, pensei bastante sobre o que eu realmente prezo neste mundo, percebi o quanto minha família tem um papel fundamental na minha vida. Coloquei na balança a importância de um lugar ou de uma pessoa. Vivi dias de ver muitas amizades abrindo portas de novas fases, amigos que desempenhavam um papel secundário passando a ser mais e mais importantes no meu cotidiano e aos poucos eu me dei conta de como eu amo os seres humanos.
Sou contra o casamento? Bom, esta é outra conversa. Estamos aqui mais propriamente para tratarmos de como o amor subiu no meu conceito e é claro que isso tem tudo a ver com estar alerta e reabrindo discussões constantemente, como gostaria de ver Raul Seixas.
Nos últimos meses eu me (re)questionei muita coisa, isso porque me coloquei numa situação que nunca imaginei poder ser possível: um relacionamento a distância. Foram dias muito produtivos de solidão, pensei bastante sobre o que eu realmente prezo neste mundo, percebi o quanto minha família tem um papel fundamental na minha vida. Coloquei na balança a importância de um lugar ou de uma pessoa. Vivi dias de ver muitas amizades abrindo portas de novas fases, amigos que desempenhavam um papel secundário passando a ser mais e mais importantes no meu cotidiano e aos poucos eu me dei conta de como eu amo os seres humanos.
O amor que me peguei sentindo foi universal.
Eu amo a vida, o respeito à vida e todas as formas de experimentar sentir-se vivo (sem que isso interfira na vida do próximo). Viver para os seres humanos tem um sentido a mais que a simples sobrevivência animal, nós como "homo sapiens" procuramos razões e sensação e isso é lindo. O amor que sinto me faz ser uma pessoa melhor, aprendi trabalhando com pessoas que às vezes mais importante que solucionar o problema de alguém é fazer aquela pessoa sentir que você realmente se importa com o problema dela. A "empatia" tão aclamada pela personagem interessantíssima de Audrey Hepburn em Funny Face - 1957. O amor é importante quando você está no meio de uma conversa e alguém diz "deviam mesmo era fechar a fronteira de vez pra todos esses árabes, já trabalhei no sistema penitenciário, só tem árabe lá", aí você pergunta "todos os árabes são ladrões, ou os bons árabes estão em casa, em seus países cuidando das suas vidas e os poucos aventureiros que veem pra cá tentar algo a mais do que poderiam encontrar lá, aqui também não têm oportunidades?". O amor se faz fundamental quando precisamos lembrar que além de americanos, europeus, chineses ou brasileiros nós somos humanos, quando precisamos lembrar que antes de ser minha casa, minha cidade ou meus país, moramos todos no meu planeta, mas que não é só meu, é nosso. O amor é lindo e importante quando penso no futuro e mais do que uma mega conta no banco e uma carreira ilustríssima, eu quero pessoas, humanos para dividir meus dias, minhas horas e dividir isso com qualidade. Porque viver é lindo, e o amor é importante para sermos humanos.
Eu amo a vida, o respeito à vida e todas as formas de experimentar sentir-se vivo (sem que isso interfira na vida do próximo). Viver para os seres humanos tem um sentido a mais que a simples sobrevivência animal, nós como "homo sapiens" procuramos razões e sensação e isso é lindo. O amor que sinto me faz ser uma pessoa melhor, aprendi trabalhando com pessoas que às vezes mais importante que solucionar o problema de alguém é fazer aquela pessoa sentir que você realmente se importa com o problema dela. A "empatia" tão aclamada pela personagem interessantíssima de Audrey Hepburn em Funny Face - 1957. O amor é importante quando você está no meio de uma conversa e alguém diz "deviam mesmo era fechar a fronteira de vez pra todos esses árabes, já trabalhei no sistema penitenciário, só tem árabe lá", aí você pergunta "todos os árabes são ladrões, ou os bons árabes estão em casa, em seus países cuidando das suas vidas e os poucos aventureiros que veem pra cá tentar algo a mais do que poderiam encontrar lá, aqui também não têm oportunidades?". O amor se faz fundamental quando precisamos lembrar que além de americanos, europeus, chineses ou brasileiros nós somos humanos, quando precisamos lembrar que antes de ser minha casa, minha cidade ou meus país, moramos todos no meu planeta, mas que não é só meu, é nosso. O amor é lindo e importante quando penso no futuro e mais do que uma mega conta no banco e uma carreira ilustríssima, eu quero pessoas, humanos para dividir meus dias, minhas horas e dividir isso com qualidade. Porque viver é lindo, e o amor é importante para sermos humanos.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Um breve ensaio sobre relação
A falta de confiança é um veneno. Conheço algumas pessoas ingênuas que confiam em tudo e em todos. Se assistir um comercial do cogumelo do sol num dia inspirado perde dinheiro. É impressionante, chega a parecer piada.
Eu não sou uma dessas pessoas.
Não nasci ontem, e apesar de também não ser velha, a gente acaba aprendendo uns truques. A escola é realmente "uma escola". Lá eu conheci várias formas de discriminação, por ser a "aluna nova", por ter "cabelo de bucha", por ser "alta", por ser "menininha", (aí bati nos meus colegas e...) por ser "machona", por ser "inteligente", por ser "crente do rabo quente", por ser "filhinha de papai" (quando a gente mal tinha dinheiro pro mercado). Muitos adjetivos que nunca fizeram sentido pra mim. Acho que o que menos fazia e o que mais me marcou foi o do cabelo crespo. O que eu não conseguia compreender é "por que eu sofro tiração de sarro com minha cara sobre algo que não posso escolher?". Além do que se aprende por tabela das experiências alheias, gordo, magro demais, preto, amarelo, com espinha, com muita maquiagem, corte de cabelo, língua presa, roupa sem marca, pai sem profissão, por não ter pai, viadinho, virgem. Mas é assim mesmo, a gente aprende que tem pessoas do seu lado que estão aí para construir e outras para destruir. Neste movimento de construção e desconstrução o mundo sobrevive e se transforma.
Confio em poucas pessoas, e geralmente é instintivo, sinto que posso confiar e confio. A partir do momento em que eu confio eu simplesmente tiro o dedo do botão de alerta. Sendo assim só existe uma pessoa que pode ligar este botão: a própria pessoa em que estou confiando, sim porque confiança é um estado, para mim, não uma qualidade, que se mantém dia após dia com a convivência.
Conviver não é sobreviver em comunidade, conviver é partilhar vida e vida requer um certo nível de qualidade, de prazer. Convívio para algumas pessoas é a única forma de construir a confiança. Para mim é a maneira que você mantém a que eu te dei.
Eu não sou uma dessas pessoas.
Não nasci ontem, e apesar de também não ser velha, a gente acaba aprendendo uns truques. A escola é realmente "uma escola". Lá eu conheci várias formas de discriminação, por ser a "aluna nova", por ter "cabelo de bucha", por ser "alta", por ser "menininha", (aí bati nos meus colegas e...) por ser "machona", por ser "inteligente", por ser "crente do rabo quente", por ser "filhinha de papai" (quando a gente mal tinha dinheiro pro mercado). Muitos adjetivos que nunca fizeram sentido pra mim. Acho que o que menos fazia e o que mais me marcou foi o do cabelo crespo. O que eu não conseguia compreender é "por que eu sofro tiração de sarro com minha cara sobre algo que não posso escolher?". Além do que se aprende por tabela das experiências alheias, gordo, magro demais, preto, amarelo, com espinha, com muita maquiagem, corte de cabelo, língua presa, roupa sem marca, pai sem profissão, por não ter pai, viadinho, virgem. Mas é assim mesmo, a gente aprende que tem pessoas do seu lado que estão aí para construir e outras para destruir. Neste movimento de construção e desconstrução o mundo sobrevive e se transforma.
Confio em poucas pessoas, e geralmente é instintivo, sinto que posso confiar e confio. A partir do momento em que eu confio eu simplesmente tiro o dedo do botão de alerta. Sendo assim só existe uma pessoa que pode ligar este botão: a própria pessoa em que estou confiando, sim porque confiança é um estado, para mim, não uma qualidade, que se mantém dia após dia com a convivência.
Conviver não é sobreviver em comunidade, conviver é partilhar vida e vida requer um certo nível de qualidade, de prazer. Convívio para algumas pessoas é a única forma de construir a confiança. Para mim é a maneira que você mantém a que eu te dei.
Tenho que admitir que geralmente as pessoas "positivas" pagam o preço de viver num mundo cheio de outras "negativas". Explico. Usei estes termos porque acho mais apropriado para explicar opostos do que dizer "pessoas boas" e "pessoas más", o que é bom? o que é mau?
Se você tem uma experiência desagradável com uma pessoa, vamos chama-la de "negativa" isso vai lhe fazer na próxima experiência acreditar que deve se proteger porque a próxima pessoa pode ser "negativa" de novo, e se você cair no mesmo truque a culpa é sua porque não se precaveu. Então você se protege para evitar viver novamente a mesma experiência.
Porém, se esta nova experiência é com uma pessoa "positiva" e você trata-la, mesmo que por precaução, como uma "negativa", aquela paga pelo erro de outrem, e então ocorre a falta de oportunidade com igualdade. Tratamento sem preconceito, igualitário.
Dito isso eu lhe proponho dois questionamentos: Primeiro, é justo os "positivos" pagarem o preço da desconfiança por viverem num mundo misto de "positivos" e "negativos"?
Segundo, é justo para quem viveu a experiência desagradável ignorar totalmente o passado, como se nada houvesse ficado do ocorrido, simplesmente para que todos tenham sempre as mesmas oportunidades despretensiosamente iguais?
Talvez devêssemos olhar para as situações, muito além de olhar para as pessoas. Disse tudo isso como resultado de uma conversa que tive com meu namorado e alguns amigos sobre este tipo de assunto e no fundo não penso que o mundo está dividido em pessoas "positivas" e pessoas "negativas". Acho que a mesma pessoa que viveu algo com alguém e isso resultou numa experiência negativa, pode em outro momento sob outras circunstâncias viver uma experiência positiva. Já vi várias vezes uma estigmação de caráter "bons e maus", "positivos e negativos", para autopreservação ou para uma simples reprovação alheia por prazer. A algum tempo tenho me mantido alerta a minha maneira de julga os outros pelos seus atos passados conhecidos, não quero ser aquela pessoa que olha torto pros demais pelo que estas fizeram em outras fases da vida.
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