Se acharem muito grande...leiam só o que der vontade!!
As Meninas de Lygia Fagundes Telles; Editora Círculo do Livro; Edição Integral.
"'Ana Clara, não envesga! ' disse Irmã Clotilde na hora de bater a foto. 'Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. E não faça careta, Lorena, você está fazendo careta! ' A pirâmide." (Página 7)
"Voltou-se para o calendário que pendia da parede, flâmula com os meses estampados na seda. Este era o ano solar. "Nunca o sol esteve tão perto", pensou escancarando a janela. Bom tempo pra fazer amor mas não revolução que calor muito forte, em subdesenvolvido, amolece. Desfibra. "Lião entendia bem disso, quanto mais calor no Terceiro Mundo mais terceiro ele fica". (Página 90)
"Ah, querido, ame uma puta mas não ame uma neurótica que a puta pode virar santa mas a neurótica." (página 90)
"Suspendo a vida no ar e me escondo debaixo da almofada: a morte está aqui com outra roupa e me olha com seu olho de salmoura. Sou capaz de me matar mas não quero morrer." (Página 97)
"Disse que não há morte definitiva, nem sequer para ela uma materialista. Que a morte e vida se integram e se completam tão perfeitas como um círculo e por isso meu irmão continuava vivo: a vida precisa da morte pra viver, "não sei explicar isso, entende?" Explicou. Inesperadamente ficou de novo alegre, cantarolou com o disco do Vinicius e perguntou no melhor humor sobre M.N."E o velho?" Fiquei alegre também: choro quando choram perto de mim mas se começam a voar, saio voando junto. Fui fazer um chá quente porque depois de beber que nem esponja, Lião adora um chá com biscoitos. Tomamos um bule inteiro e se ela não tivesse ido fazer pipi e se eu não tivesse inventado de entrar num banho, na certa teríamos ficado curtindo até às cinco da manhã. (Página 102)
"-Acho que sim. Quando noviça, eu pensava muito na minha gente. Sabia que não ia voltar mas continuava pensando com tanta força. Como quando se tira um vestido velho do baú, um vestido que não é pra usar, só pra olhar. Só pra ver como ele era. Depois a gente dobra de novo e guarda mas não se cogita em jogar fora ou dar. Acho que saudade é isso."(Página 122)
"Bons conselhos, cobertores. Eles bebem a sopinha, ouvem os conselhos e vão correndo trocar o cobertozinho pelo litro de cachaça porque o dia amanheceu mais quente, pra que cobertor? Tudo continua como na véspera com uma noite de demência a mais fornecida pelo donativo. [...] Caridade individual é romantismo, cheguei a essa conclusão não faz muito tempo." (Página 125)
"-O Bezerro de Ouro está instalado na praça e a senhora me fala em espiritualidade. [...] Esses desastres, esses crimes, tudo isso é desespero, o povo está sem esperança e nem sabe. Então fica subindo nos postes, dando tiro à toa, bebendo querosene e gasolina de aflição. Medo. Eu estava assim desorientada. Agora sei o que quero fazer." (Página 127)
Ih, o blá-blá-blá clássico, o que sou? De onde venho? pra onde vou? [...]'Trabalhe, entende. Seja útil, participe e quero ver se vai ter folga pra ficar admirando o próprio embigo'. Ela diz embigo, eh, Lia de Melo Schultz. Concordo e tudo mas as milhares de horas que gastei olhando o meu. O que sou? Plenitude transbordante se ao menos por telefone ele me diz um alô. Alôlorena." (Página 131)
"-A desordem me deprime, irmã. Ah, se eu pudesse me arrumar por dentro, tudo calminho nas gavetas. Minhocação demais." (Página 133)
"E as coisas que via de olhos fechados? Não existiriam realmente? Por que o delírio não haveria de corresponder a uma realidade?" (Página 134)
"Apenas um terço de nós é visível, a senhora sabia? O resto não se vê. O avesso." (Página 134)
"A aliança discreta. Aspirei-lhe o hálito de homem de meia-idade e meia felicidade, que é pior ainda do que infelicidade inteira, diz tia Luci que já se casou um monte de vezes." (Página 169)

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