Acordo com o despertador. Não acordo. Ele é insistente como criança mimada e continua chorando seu chamego meloso e irritante. Desligo, me aborreço no meu primeiro instante do dia e levanto. Vou até o banheiro, o pai de todo “despertar forçado” à base de água gelada na cara e depois dos rituais dos cremes e sabonetes faciais subo pra cozinha.
Isso mesmo, minha casa é assim, às avessas. Um sobrado que o quarto fica embaixo e a cozinha e a sala na parte superior, não me pergunte o porquê, ou então vai receber uma resposta clássica de Chicó: “Num sei, só sei que foi assim!”.
Sento à mesa e vejo minha mãe atarefada, como sempre está, como se não tivesse dormido e tivesse passado a noite e a madrugada todo realizando alguma tarefa. Vejo-a com a cara meio amassada e penso com alívio “ufa, ela dormiu!”.
Oi, mãe, faz um queijo quente pra mim?
Ela não responde, continua com sua companhia de pensamentos, fala alguma coisa sobre o que vou fazer hoje, se vou lavar minha roupa ou sair, eu não digo nada direto, estou acordando, saber o que vou fazer é uma responsabilidade que ainda não peguei na cota de hoje.
Como meu queijo quente, agradeço e chamo-a para ir ao mercado comigo porque não quero ir sozinha.
Começa a novela.
Antes tenho que usar o banheiro.
Antes tenho que trocar de roupa.
Antes tenho que ver o que vou comprar pro almoço.
Antes...
E nessa eu perco tanto tempo que me pergunto se não teria sido melhor ter ido sozinha...Não!
Ir com minha mãe ao mercado já faz parte da vida. Teve uma época que era minha terapia, andar com ela, quase nunca a gente fala coisa importante, isso é bom, sempre que falávamos coisas importantes era para tentar resolver alguma crise, ou problema grande. Problema pequeno a gente resolve sozinho. Melhor quando se fala de nada.
Então depois de um tempo esperando-a pego o livro e começo a ler minha crônica do dia. Geralmente leio no ônibus ou no metrô. São lugares onde o tempo é ocioso e tem bastante gente. Crônica me lembra gente. Eu gosto.
Depois do segundo parágrafo ela desce e diz “vamos?”, Ah! Tá de brincadeira eu penso, agora que tô lendo? Não vou nem me mexer, e continuo.
“Vai mais não?”
“Mãe, tô lendo!”
“Ah! Tá lendo o Braga?!” E faz uma cara de amiga que vai com a outra na festa e é trocada no meio do baile por um par de calças. E entra no meu quarto pra não ver nada e não fazer nada, volta pra sala e fica me rondando.
“Vai me atrapalhar mesmo?”
“Eu não, quem sou eu contra ele?!”
Termino a crônica e embarcamos para a terapia da ida ao mercado.
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KKKKKK DESPERTADORES, ROTINAS, MÃES, QUEIJOS...heheh
ResponderExcluirADOREIII LER-TE HJ...rsr confesso que no final vc recebeu uma risadinha no canto da boca ;)
XEROOO
gostei de ver, antes termina a leitura. eu já teria jogado tudo no sofá e dito 'até que enfim' hahahah
ResponderExcluirDetalhes assim fazem a vida valer a pena, este amor implícito, esta convivência. Sou muito feliz quando eu reparo nisso: "poxa, estou aqui com a minha mãe, com a minha irmã, com o meu cachorro, somos ainda jovens, participamos ainda da vida uns dos outros, ainda tenho meu quarto, minha família inteira ao meu redor, sou estudante, como sou feliz."
ResponderExcluirPorque é tudo tão seguro assim... Espero ter esta sensação de segurança com o passar do tempo.
Uau! Bem legal! Nathi, hoje voltei ao meu blog, só hoje [sorrio]. 4 mil seguidores e cada um faz toda diferença. Sinceramente, tenho a curiosa e pueril esperança de encontrar um amigo cada vez que uma pessoa se une ao meu blog. Beijo! Seja bem vinda!
ResponderExcluirUm dia eu ainda vou deixar de precisar ir ao mercado!
ResponderExcluirUm dia!
- nossos pais e mães sempre propiciam histórias maravilhosas como esta, mesmo se preparando para ir a um SIMPLES mercado, :D
ResponderExcluirps: jamais deixe de ir ao mercado, aliás, a lugar algum, uma crônica pode surgir até em um ponto de ônibus.