sexta-feira, 12 de março de 2010

Empréstimo

CHEGOU O OUTONO


Não consigo me lembrar exatamente o dia em que o outono começou no Rio de Janeiro neste 1935. Antes de começar na folhinha ele começou na Rua Marquês de Abrantes. Talvez no dia 12 de março. Sei que estava com Miguel em um reboque do bonde Praia Vermelha. Nunca precisei usar sistematicamente o bonde Praia Vermelha, mas sempre fui simpatizante. É o bonde dos soldados do Exército e dos estudantes de Medicina.

Raras mulatas no reboque; liberdade de colocar os pés e mesmo esticar as pernas sobre o banco da frente. Os condutores são amenos. Fatigaram-se naturalmente de advertir os soldados e estudantes; quando acontece alguma coisa eles suspiram e tocam o bonde. Também os loucos mansos viajam ali, rumo do hospício. Nunca viajou naquele bonde um empregado da City Improvements Company: Praia Vermelha não tem esgotos. Oh, a City! Assim mesmo se vive na Praia Vermelha. Essenciais são os esgotos da alma. Nossa pobre alma inesgotável! Mesmo depois do corpo dar com o rabo na cerea e parar no buraco do chão para ficar podre, ela, segundo consta, fica esvoaçando pra cá, pra lá. Umas vão ouvir Francesa da Rimini declamar versos de Dante, outras preferem a harpa de Santa Cecília. A maioria vai para o Purgatório. Outras perambulam pelas sessões espíritas, outras à meia-noite puxam o vosso pé, outras no firmamento viram estrelinhas. Os soldados do Exército não podem olhar as estrelas : lembram-se dos generais. Lá no céu tem três estrelas, todas três em carreirinha. Uma é minha, outra é sua. O cantor tem pena da que vai ficar sozinha. Que faremos, oh meu grande e velho amor, da estrela disponível? Que ela fique sendo propriedade das almas errantes. Nossas pobres almas erradas!

Eu ia no reboque, e o reboque tem vantagens e desvantagens. Vantagem é poder saltar ou subir de qualquer lado, e também a melhor ventilação. Desvantagem é o encosto reduzido. Além disso os vossos joelhos podem tocar o corpo da pessoa que vai no banco da frente; e isso tanto pode ser doce vantagem como triste desvantagem. Eu havia tomado o bonde na Praça José de Alencar; e quando entramos na Rua Marquês de Abrantes, rumo de Botafogo, o outono invadiu o reboque. Invadiu e bateu no lado esquerdo de minha cara sob a forma de uma folha seca. Atrás dessa folha veio um vento, e era o vento do outono. Muitos passageiros do bonde suavam.

No Rio de Janeiro faz tanto calor que depois que acaba o calor a população continua a suar gratuitamente e por força do hábito durante quatro ou cinco semanas ainda.

Percebi com uma rapidez espantosa que o outono havia chegado. Mas eu não tinha relógio, nem Miguel. Tentei espiar as horas no interior de um botequim, nada conseguindo. Olhei para o lado. Ao lado estava um homem decentemente vestido, com cara de possuidor de relógio.

- O senhor pode ter a gentileza de me dar as horas?

Ele espantou-se um pouco e, embora sem nenhum ar gentil, me deu as horas : 13:48. Agradeci e murmurei : chegou o outono. Ele deve ter ouvido essa frase tão lapidar, mas aparentemente não ficou comovido. Era um homem simples e tudo o que esperava era que o bonde chegasse a um determinado poste.

Chegara o outono. Vinha talvez do mar e, passando pelo nosso reboque, dirigia-se apressadamente ao centro da cidade, ainda ocupado pelo verão. Ele não vinha soluçando les sanglots longs des violons de Verlaine, vinha com tosse, na quaresma da cidade gripada.

As folhas secas davam pulinhos ao longo da sarjeta; e o vento era quase frio, quase morno, na Rua Marques de Abrantes. E as folhas eram amarelas, e meu coração soluçava, e o bonde roncava.

Passamos diante de um edifício de apartamentos cuja construção está paralisada no mínimo desde 1930. Era iminente a entrada em Botafogo; penso que o resto da viagem não interessa ao grosso público. O próprio começo, da viagem creio que também não interessou. Que bem me importa. O necessário é que todos saibam que chegou o outono. Chegou às 13:48 horas, na Rua Marques de Abrantes, e continua em vigor. Em vista do que, ponhamo-nos melancólicos.

Março, 1935

RUBEM BRAGA

8 comentários:

  1. Nathy, vim te agradecer a visita.

    Eu adoro o outono e quando as folhas comecam a ficar em tons amarelados, alaranjados e amarronzados, dao uma beleza diferente na cidade.


    Estou vindo te convidar para ler a entrevista de uma autora brasileira bem legal.
    Aqui neste link.

    http://www.elasestaolendo.blogspot.com/

    Um beijao Georgia

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. É isso, dona Nathi. O que vale no mundo virtual são os vizinhos. Ou os pretextos alheios, que vamos reconhecendo. Quem te garante que o pretexto rabugento era apenas divulgar o telhado vizinho? Quem sabe ele queria fazer mais vizinhos conhecerem suas teorias? Ou seria o pretexto de fazer que outros conhecessem a vizinha cantora, enquanto ele conhece outros pretextos? Enfim... A vida é confusa.

    Gosto do texto de Rubens Braga porque é bem familiar. Embora as estações de hoje não sejam definidas. Mas gosto do texto também porque é de um Braga.

    Bom te conhecer!
    Continuarei passando por aqui.

    Abraços rabugentos!

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  4. Olá moça, obrigada e blablabla =)
    Oq a senhorita disse em meu blog é bem verdade, a prova da contradição está escrita no mesmo, em algum texto que fala sobre humanos. Meu poema foi propositalmente infantil, e até 'romântico'. É bom de vez em quando pra adoçar a amargura humana.
    Enfim, adorei sua opinião, é bom saber que existe gente que realmente 'avalia' o que escrevemos.

    E por falar nisso...Muito bacana o texto, não conhecia o autor. E vale uma observação: onde eu moro não existem 4 estações. Então sortudos aqueles que podem contemplar todos os sentimentos contidos nessas fases da natureza =)

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  5. hahaha
    é bem verdade o lance do "não haver as 4 estações" citado acima - infelizmente.

    mas na medida do possível, acho que entendo um pouco tal sentimento...
    ou não.
    :p

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  6. Acho que na verdade a "estação" está contida no momento em que encontra-se tu.

    Alguém resolveu chamar de primavera a estação em que brotavam flores dos seus próprios olhos e inverno a que seu coração se predrificou, e assim vai!

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  7. "Alguém resolveu chamar de primavera a estação em que brotavam flores dos seus próprios olhos e inverno a que seu coração se predrificou, e assim vai!"

    Continua achando que, por aqui, as estação não se definem tanto. ehehe

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  8. É bom ler estes fragmentos do passado, mas realmente, não quero ser uma estrela solitária em qualquer estação...

    Fique com Deus, menina Nathi.
    Um abraço.

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