Nelson era o cara parado no salão de festa, não dança, não bebe, não se incomoda em mudar de expressão facial ao cumprimentar conhecidos.
Conhecidos, isso era tudo que Nelson tinha. Conhecidos do boliche do pai, capitalista, conhecidos da igreja da mãe, beata, da vizinhança de ambos. Na vida de Nelson nada era realmente dele, talvez nem mesmo suas coisas fossem dele, tudo ganhado, de rifa a presente de natal. De uma coisa Nelson não podia se queixar, sempre foi um ganhador de primeira.
Na escola primária ganhava todos os sorteios de lápis de cor, massinha de modelar, lanche da cantina, entre outras coisas na época de junho. Cresceu e em outras festas juninas foi a vez de ganhar em joguinho de derrubar latinhas, acertar a casa do coelho e estas coisas que enchem os olhos das mocinhas de ninharias. Sempre deixa o presente na mão da moça que estivesse mais próxima, e quando esta vinha toda agradecida lhe dar outro presente...
Pronto, lá se foi o Nelson e sua mania de ser o cara sem expressão facial dos salões.
Alguns até se perguntavam se ele morreria virgem, mas que diferença faria?
Antes que pensem algo do Nelson, ele não levou pra outra vida a inocência que trouxe a este mundo.
Um dia Nelson foi parar num hospital, caiu ao chutar uma bola e ficou, digamos assim, um pouco mais calado que sempre. Não, ele não estava jogando bola, o jogo não era dele, como todo o resto, ele só estava devolvendo a bola que caiu no quintal da casa dos pais, para que não fiquem dúvidas.
O que importa é que internado ele ficou e uma enfermeira o conheceu, ele não a conhecia muito bem, mas não se sabe direito como, entre a saída do hospital e o término do colegial naquele mesmo ano, Nelson e a enfermeira estavam namorando.
Ela mais velha que ele usava de sua experiência para mostrar a Nelson como a vida podia ser diferente do mundinho que ele conhecia. E depois de algumas aventuras, uniu o interesse da moça, que por sinal se chamava Adelaide, ao ver o lucro e a segurança que um ponto de jogo de boliche podia trazer para uma mulher e o medo da mãe de ter que lavar as meias de Nelson até o fim da vida. Eles se casaram, abriram uma filial do jogo de boliche na cidade vizinha, construíram a casa da Adelaide e do Nelson na lateral do terreno e foram pro seu “felizes para sempre”.
Só teve um contratempo, Nelson não foi feliz.
Cumpria seu dever todos os dias abrindo e fechando o boliche.
Levava a carne do jantar. Às vezes salsicha, bisteca, hambúrguer, estas coisas que chamam por aí de mistura. Mas pobre do Nelson, a enfermeira resolveu que casamento era sinônimo de aposentadoria. Resolveu também que dinheiro era sinônimo de insuficiente. Ah! Sem falar no sinônimo de Nelson, Capacho.
Pobre do Nelson.
“Neeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeelson!”
“O que houve, Adelaide?”
“Minha chapinha está ultrapassada.”
“Neeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeelson!”
“An.”
“Minhas bolsas são todas ultrapassadas!”
“Neeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeelson!”
“.”
“Minhas roupas estão todas...”
“Ultrapassadas!”
“Viu? Até você já reparou, imagine as meninas do clube de tranca.”
Pobre Nelson. Ele não tem culpa de não ter sua própria vida. A única coisa que ele tem é um cartão de crédito!
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